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O impacto do setor audiovisual que as câmeras não mostram
O impacto ambiental que as câmeras não mostram
O que 45 filmagens publicitárias em São Paulo revelam sobre o verdadeiro custo ambiental de um set
“Set sustentável” virou expressão comum no mercado publicitário. Mas o que ela realmente significa, em números? Até hoje, faltava uma resposta técnica a essa pergunta no Brasil.
Para preencher essa lacuna, a Sustent desenvolveu um estudo aplicado,que mediu resíduos sólidos e emissões de gases de efeito estufa (GEE) em 45 filmagens publicitárias realizadas em São Paulo, entre janeiro de 2024 e maio de 2026.
O resultado é o primeiro conjunto de indicadores técnicos e comparáveis do setor no país.
Como o estudo foi feito
A pesquisa acompanhou a operação de cada set in loco: pesou os materiais descartados, segregados em recicláveis, orgânicos e rejeitos, e inventariou as emissões de carbono conforme o GHG Protocol, cobrindo os Escopos 1 (geradores), 2 (rede elétrica) e 3 (deslocamento terrestre de equipe e fornecedores).
Para permitir comparação entre jobs de tamanhos diferentes, o impacto de cada produção foi normalizado pela métrica pessoa-dia: o total de resíduos ou emissões dividido pelo tamanho da equipe multiplicado pelo número de diárias. Essa normalização deu origem aos Indicadores de Desempenho Operacional (IDOs), expressos em kg de resíduo e kgCO₂e por pessoa, por dia de filmagem.
As produções foram agrupadas em três portes de equipe:
Pequeno: até 45 pessoas
Médio: de 46 a 90 pessoas
Grande: acima de 90 pessoas
O que os números mostram
Porte | Resíduos aproveitáveis (kg/pessoa/dia) | Emissões de GEE (kgCO₂e/pessoa/dia) | Taxa de reaproveitamento |
|---|---|---|---|
Pequeno | 0,71 | 9,43 | 88,4% |
Médio | 0,85 | 18,29 | 86,1% |
Grande | 0,73 | 12,08 | 89,4% |
O primeiro achado surpreende: o impacto não cresce de forma linear com o tamanho da equipe. As produções de porte médio se destacam como o ponto de maior ineficiência da cadeia produtiva, tanto em resíduos quanto em carbono.
A explicação está na estrutura operacional. Um job de porte médio já exige uma logística pesada, próxima à de uma produção grande (geradores, frotas de transporte, múltiplos fornecedores), mas não tem gente suficiente para diluir esse impacto por pessoa. O resultado é o pior indicador entre os três grupos: mais rejeito por pessoa (o dobro do porte pequeno), menor taxa de reaproveitamento e a maior intensidade de emissões.
Um raio-x do resíduo: o que muda por porte
A composição do que é descartado também muda, e de forma significativa, conforme o tamanho da equipe.
Porte | Recicláveis | Orgânicos | Rejeitos |
|---|---|---|---|
Pequeno | 35,9% | 55,0% | 9,1% |
Médio | 42,3% | 43,8% | 13,9% |
Grande | 50,5% | 39,1% | 10,4% |
Em produções pequenas, o orgânico domina: mais da metade do resíduo vem do catering da equipe. Já nas produções grandes, o reciclável assume a liderança, puxado por embalagens e material do departamento de arte e cenografia, e por uma infraestrutura maior, que também eleva o consumo de plástico de uso único.
O porte médio, mais uma vez, aparece como o ponto de maior fragilidade: a taxa de reaproveitamento cai para 86,1%, a menor dos três grupos, e o volume de rejeito por pessoa, 0,12 kg por dia, é o dobro do registrado no porte pequeno (0,06 kg). O indício é de contaminação cruzada: a equipe cresce, mas a supervisão ambiental dedicada não cresce na mesma proporção.
O que tem dentro do reciclável
Olhando com mais detalhe para dentro da fração reciclável, levantamos a composição de materiais
Papel e papelão: 63,2%
Plástico: 29,4%
Vidro: 6,2%
Alumínio: 1,2%
Papel e papelão lideram folgadamente, puxados por embalagens de transporte e material de cenografia, o que ajuda a explicar por que, nos jobs de porte grande, o departamento de arte pesa tanto na fração reciclável.
O vilão não está na lixeira
O achado mais relevante do estudo, porém, é sobre onde o mercado publicitário paulistano concentra sua atenção.
Ao cruzar os dois eixos analisados, a pesquisa identificou que a queima de combustíveis fósseis, e não a geração de resíduos, é a verdadeira raiz do impacto ambiental de uma filmagem. A logística terrestre (deslocamento de equipe e fornecedores) responde por 64% a 78% das emissões em todos os portes, e o uso de geradores a diesel chega a 35% nas produções de porte médio, sendo praticamente onipresente (100%) nos jobs de grande porte.
Ainda assim, o setor tende a adotar uma postura “end-of-pipe”: focar no tratamento do que já foi gerado (separar, destinar corretamente, compensar), em vez de agir na origem do problema. Isso acontece, em parte, porque o impacto dos resíduos é visível no set (a lixeira está ali, a coleta seletiva tem volume palpável), enquanto o consumo de energia e combustível é invisível durante a rotina de trabalho.
O estudo mostra que esse foco está mal direcionado. A gestão de resíduos, embora essencial, trata apenas parte do problema.
Um raio-x das emissões: o que pesa de verdade
Olhando a composição da pegada de carbono por porte, fica claro que a logística terrestre domina em todas as escalas de produção, e que o gerador a diesel deixou de ser exceção.
Porte | Geradores a diesel | Rede elétrica | Logística terrestre |
|---|---|---|---|
Pequeno | 18% | 4% | 78% |
Médio | 35% | 1% | 64% |
Grande | 31% | 1% | 68% |
No porte pequeno, a rede elétrica local ainda tem alguma relevância, equipes reduzidas usam menos equipamento e nem sempre precisam de geração própria. Já nos portes médio e grande, o diesel vira padrão operacional: 100% das produções de porte grande analisadas dependeram de gerador.
O fornecedor pesa mais que a própria equipe
Um dado que passa despercebido: dentro da logística terrestre, o transporte de fornecedores emite muito mais do que o deslocamento da própria equipe de produção.
No porte médio, o transporte de equipe responde por 2,22 kgCO₂e por pessoa/dia, enquanto o transporte de fornecedores (frota de luz, maquinária, geradores, cenografia) chega a 9,32 kgCO₂e por pessoa/dia, mais de 4 vezes mais. A frota que carrega o equipamento do set pesa mais no inventário do que todo mundo que trabalha nele.
O teste do avião
O estudo deliberadamente excluiu deslocamentos aéreos do cálculo principal, para não distorcer a leitura do impacto logístico terrestre do dia a dia. O motivo fica claro em um teste simples: incluir os voos de apenas duas produções de porte grande aumentaria o inventário de emissões desse grupo em 142%.
Isso não significa que a aviação deva ser ignorada, muito pelo contrário. Significa que, quando ela entra na conta, precisa ser medida à parte, sob risco de mascarar o verdadeiro custo logístico terrestre que se repete em toda produção, com ou sem viagem aérea.
Quanto isso pesa, na prática
Para dar escala aos números, o estudo comparou os indicadores de um set publicitário aos de um habitante comum de São Paulo, também medidos por pessoa, por dia.
Resíduos: um paulistano gera, em média, 0,64 kg de resíduo reaproveitável por dia. Uma pessoa em um set de porte médio gera 0,85 kg, quase um terço a mais, em um único turno de trabalho.
Emissões: a diferença é bem mais expressiva. Um paulistano emite, em média, 3,39 kgCO₂e por dia. Uma pessoa em um set de porte médio é responsável por 18,29 kgCO₂e, mais de cinco vezes a pegada diária de um cidadão comum.
Essa comparação desmistifica a ideia do audiovisual como uma “indústria sem chaminés”. O produto final é imaterial (imagens exibidas em tela), mas o processo de produção tem um custo ecológico real e mensurável.
O que fazer com esse diagnóstico
O estudo não se propõe apenas a medir. Ele aponta um caminho de ação, com base no que os dados revelam:
Reduzir a carga elétrica antes de gerar energia. Equipamentos de iluminação mais eficientes (LED) permitem substituir geradores a diesel por baterias, atacando a maior fonte de emissão do setor.
Planejar a logística de fornecedores. Como o transporte terrestre é o maior vetor de impacto, otimizar rotas e consolidar fretes reduz emissões de forma direta.
Reforçar o apoio ambiental em jobs de porte médio. É a categoria com maior necessidade de supervisão dedicada à correta segregação de resíduos.
Medir cada job com indicadores comparáveis. Só é possível gerenciar o que se mede. Os IDOs por porte oferecem um parâmetro objetivo para avaliar se uma produção está acima ou abaixo do esperado, e onde agir.
Um benchmark para o mercado
Este estudo não pretende ser a média do mercado publicitário paulistano. A amostra foi construída por conveniência, a partir de produções atendidas pela Sustent, e serve como referência técnica, não como retrato estatístico do setor.
Ainda assim, é o primeiro parâmetro nacional construído com dados primários reais e auditáveis, seguindo diretrizes da NBR ISO 14031 de Avaliação de Desempenho Ambiental. Onde hoje o mercado se apoia em rótulos como “set sustentável”, sem lastro numérico, este trabalho oferece um ponto de partida mensurável.
À medida que mais produções forem medidas, esse benchmark pode ser atualizado e refinado, tornando-se uma referência cada vez mais robusta para o setor.
Quer saber como o seu próximo job se compara a esse benchmark? Fale com a Sustent.
